29 Junho 2005

Empresta-me um beijo

Após vaguear longa e repentinamente pelo museu futuro das minhas memórias, penduradas por fios de medo nestas paredes de ar hostil e branco, suplico-te: empresta-me um beijo.

Urge sermos.
Existe um excesso de tempo neste agora.
Existe um cúmulo de espaço neste aqui.
Guardo a tua sombra encostada ao meu peito como um buraco sem estrelas.
Espero nesta falsa quietude o inevitável que já passou, enquanto te suplico: empresta-me um beijo.

Agora tudo me parece tarde e rápido. Será qualquer coisa de igual e diferente, previsível e surpreendente. O olhar estranho, cego e distante. A loja triste na colina de sal. Deixo-me correr emprestado de carne e água, enquanto espero por ti e te suplico: empresta-me um beijo.

Antes abrem-se novamente as portas.
Regresso pela primeira vez ao passado dos quadros a pintar.
Agarro-me.
Reconheço as cores desse branco, preparo-me para correr à procura dos corredores vazios de mim, enquanto te suplico: empresta-me um beijo.

AN

28 Junho 2005

"A Dream of Death", William Butler Yeats

I Dreamed that one had died in a strange place
Near no accustomed hand,
And they had nailed the boards above her face,
The peasants of that land,Wondering to lay her in that solitude,
And raised above her mound
A cross they had made out of two bits of wood,
And planted cypress round;
And left her to the indifferent stars above
Until I carved these words:
i{She was more beautiful than thy first love,}
i{But now lies under boards.}

27 Junho 2005

I/II/III

I. Quando o vento deixar de soprar, então partirei. Enquanto a música do meu ser permanecer acordada no interior da noite, enquanto o odor de um certo delírio líquido e sequioso querer se mantiver desperto, acariciando as sementes lúcidas da minha carne, então, só então, partirei. Por que o silêncio se eleva como uma ordem carente de paixão, oscilante e serena de querer a inevitabilidade: o mar do meu eterno devir.
II. Regresso à terra brava e silvestre onde nasci. Regresso ao coração mole e doce de que já fui sem querer ser. Só sei e nem isso. Quando pisar a terra do meu regresso, poderei iniciar essa viagem que me conduzirá por cores, sons, aromas, e texturas que sempre me preencheram sem que algo mais me bastasse, sem que o Sol, a Lua, a noite e o dia, a morte e a vida, me deixassem sair de mim, sem que as metamorfoses equilibradas de um certo sonho encarnassem nas margens da realidade.
III. Um quarto de coragens amarradas ao adormecimento amnésico de uma cobardia apaixonante. Quero sempre um outro desejar. Equilibro-me ao cair. Sempre passado, presente, futuro. Um futuro agarrado ao impossível retorno. Quando o amor se abriu tu saíste, olhando a paz com um sorriso de sal, iluminada com o odor de uma eternidade que fértil sussurrava o dia ainda adormecido e frio. Quando me ergueste para te tocar, morri.
AN

"Alma minha gentil, que te partiste", Camões

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa sem remédio, de perder-te

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.


Camões in "Sonetos", ed. Europa-América

26 Junho 2005

Mordeste-me a Alma

Mordeste-me a Alma
com o cheiro do teu olhar.
Naveguei pelo teu sangue,
tacteando a tua voz,
no sepulcro da Noite
em que finalmente
nascemos...
para a eternidade

AN

25 Junho 2005

"Animal Ferido", Eugénio de Andrade

Noite,
bosque excessivo
acolhe
este animal ferido
de perguntas,
ajuda-me
a ser álamo contigo


Eugénio de Andrade, "Obscuro Domínio", ed. FEA
"The Kiss", Gustav Klimt (1907/08)  Posted by Hello

Sinto-te

Sinto-te quanto me mordo
anulo a ausência etérea
da nossa carne invisível
estátuas líquidas
em busca de um mar.

As pétalas adormecidas dos meus beijos
choram a tua pele

AN

24 Junho 2005

Apresentação

O poema "Dúvidas" escrito por mim há dois dias e publicado n´o vício da arte ressuscitou-me a vontade de escrever poesia. Depois de ler alguns trabalhos de Fernando Pessoa dei por encerrados os meus pobres cantos líricos, inspirações e aspirações poéticas. Tendo sucedido o mesmo nos contos e romances com outra grande força gravitacional das letras que amo e odeio: António Lobo Antunes. No entanto, parece que finalmente consegui sobreviver a uma asfixia criativa. Na origem desta nova vontade de escrever pode muito bem estar uma certa solidão, agónica, com golpes sazonais mais intensos e arrebatadores depressão que me têm assolado nos últimos meses. Dá-me para o intimismo e para a violência, para a culpa e tristeza e com golpe de coragem, apetece-me subitamente escrever, abrir ou pouco um baú que há muito dava como encerrado para sempre. Não sei se tenho coragem para publicar dois livros de poesia que guardo desde os anos 80 e 90 ou se tenho a inspiração, o engenho e a arte suficientes para levar este blog a algum porto, no entanto, lanço hoje a primeira pedra, com "Dúvidas", entrego o resto ao "abandono vigiado" da criatividade.

Dúvidas

Dúvidas escorrem
como sombras sobre minh´alma de plástico,
emprestada e frágil.
Aos primeiros raios de luz, derreto-me em ti.
O silêncio quente do teu desespero
ilumima-me.
Espero pela noite,
inquieto.

AN