27 Junho 2005

I/II/III

I. Quando o vento deixar de soprar, então partirei. Enquanto a música do meu ser permanecer acordada no interior da noite, enquanto o odor de um certo delírio líquido e sequioso querer se mantiver desperto, acariciando as sementes lúcidas da minha carne, então, só então, partirei. Por que o silêncio se eleva como uma ordem carente de paixão, oscilante e serena de querer a inevitabilidade: o mar do meu eterno devir.
II. Regresso à terra brava e silvestre onde nasci. Regresso ao coração mole e doce de que já fui sem querer ser. Só sei e nem isso. Quando pisar a terra do meu regresso, poderei iniciar essa viagem que me conduzirá por cores, sons, aromas, e texturas que sempre me preencheram sem que algo mais me bastasse, sem que o Sol, a Lua, a noite e o dia, a morte e a vida, me deixassem sair de mim, sem que as metamorfoses equilibradas de um certo sonho encarnassem nas margens da realidade.
III. Um quarto de coragens amarradas ao adormecimento amnésico de uma cobardia apaixonante. Quero sempre um outro desejar. Equilibro-me ao cair. Sempre passado, presente, futuro. Um futuro agarrado ao impossível retorno. Quando o amor se abriu tu saíste, olhando a paz com um sorriso de sal, iluminada com o odor de uma eternidade que fértil sussurrava o dia ainda adormecido e frio. Quando me ergueste para te tocar, morri.
AN

1 comentários:

Isabel Mar disse...

Está LIIIIINDO!!! Magnificamente bonito e profundo. Parabéns!